Lino Fernandes: uma trajetória intensa entre o comércio, a política e a cultura

Lino Fernandes (grupo de baixo, terno branco) em peça de teatro

Quando assumiu a presidência da Associação Comercial de Campina Grande de maneira breve, em 1932, Lino Fernandes de Azevedo já havia construído uma trajetória ligada ao comércio e à vida econômica da cidade. Empresário, contador e proprietário de estabelecimentos comerciais, ele também se tornaria um personagem presente na política, na cultura e no associativismo campinense.

Nascido em 28 de junho de 1885, no Recife, Lino era filho de Lino Fernandes de Azevedo e Maria Magalhães de Azevedo. Fez seus primeiros estudos na capital pernambucana e formou-se em Ciências Contábeis. Em 1911, mudou-se para Campina Grande, onde se estabeleceu definitivamente.

Foi no comércio que iniciou sua trajetória na cidade. Lino implantou a Livraria Campinense e também foi proprietário da Farmácia Azevedo. Sua atuação empresarial se estenderia posteriormente ao setor financeiro: em setembro de 1944, assumiu a presidência do Banco Auxiliar do Povo.

A presença no meio empresarial aproximou Lino Fernandes da Associação Comercial, criada em dezembro de 1926 para representar os interesses dos comerciantes de Campina Grande. Nos primeiros anos de funcionamento da entidade, seu nome já aparece no contexto da atuação pública dos homens ligados ao comércio. O Memorial ACCG 90 Anos registra que Lino Fernandes e João Leôncio de Castro, ambos comerciantes e integrantes do Partido Democrático, passaram a fazer parte do Conselho Municipal, numa época em que a própria Associação começava a adquirir maior peso na vida política local.

Foi nesse ambiente que Lino chegou à presidência da ACCG.

Presidente da Associação Comercial

No início de 1932, a Associação Comercial contava com cerca de 30 associados e atravessava um período de pouca atividade. Em 4 de janeiro daquele ano, o agrupamento decidiu escolher uma nova diretoria. Encerrava-se, assim, o período de Demósthenes Barbosa, que estava à frente da ACCG desde sua fundação. Lino Fernandes foi escolhido para sucedê-lo, tendo como vice-presidente o empresário João Rique Ferreira.

A diretoria contava ainda com Abelardo Lobo como primeiro-secretário, Christino Pimentel como segundo-secretário, Enéas Almeida na tesouraria e Ottoni Barreto como vice-tesoureiro.

Embora tenha durado apenas alguns meses, a nova administração coincidiu com mudanças importantes na organização da ACCG. Pouco depois da posse da diretoria, foi criado O Comércio de Campina, jornal voltado para a defesa dos interesses da classe comercial. A Associação também passou a enfrentar questões relacionadas à tributação, como impostos que incidiam sobre mercadorias e sobre o algodão, além de recorrer às autoridades contra medidas que prejudicavam a aquisição de materiais e mercadorias no comércio campinense. Algumas dessas reivindicações obtiveram resultado favorável.

Outro avanço ocorreu em maio de 1932. Até então, a ACCG costumava realizar suas reuniões em espaços emprestados por outras instituições, especialmente o Campinense Clube. Naquele mês, passou a contar com uma sede instalada em um imóvel alugado na Rua Maciel Pinheiro.

A presidência formal de Lino Fernandes, entretanto, foi progressivamente compartilhada na prática com João Rique. Em julho de 1932, João Rique já enviava correspondências em nome da Associação e presidia as reuniões na condição de presidente interino. 

A gestão de Lino terminou em novembro de 1932. João Rique foi então eleito por unanimidade para comandar oficialmente a ACCG no ano seguinte. A curta passagem de Lino pela presidência tornou-se, dessa forma, um período de transição entre a administração fundadora de Demósthenes Barbosa e uma nova fase de organização e maior atividade institucional da Associação.

Atividade cultural

Mas o comércio e a ACCG foram apenas parte da trajetória de Lino Fernandes em Campina Grande. Paralelamente à atividade empresarial, ele manteve forte envolvimento com a vida cultural da cidade.

Poeta e colaborador de jornais locais, entre eles o Correio de Campina, Lino foi também teatrólogo, escreveu e dirigiu peças apresentadas em Campina Grande e em outras cidades. Em 1913, participou, ao lado do professor José Coelho, da criação da primeira biblioteca cultural campinense, o Gabinete de Leitura 07 de Setembro, instalado no Paço Municipal e que, segundo o Memorial, permaneceu durante muito tempo como o único centro cultural da cidade.

Também foi sócio-fundador do Cine Theatro Apollo, ao lado de Manuel Cavalcanti Belo e Probo da Silva Câmara. Instalado na Rua Maciel Pinheiro, o espaço foi inaugurado em 31 de maio de 1925 e funcionava como cinema e teatro.

Sua vocação associativa apareceria novamente em 1935, quando participou da criação do Rotary Club de Campina Grande. Lino Fernandes tornou-se sócio-fundador e primeiro presidente da instituição. O quadro inicial do Rotary reunia vários comerciantes também ligados à Associação Comercial, entre eles João Rique Ferreira, João Araújo e João Leôncio de Castro.

Atuação política e legado

Lino também teve atuação política. Exerceu mandatos de vereador e deputado estadual e chegou à presidência da Câmara. Assim, ao longo de décadas, transitou entre diferentes áreas da vida campinense: foi comerciante, empresário, dirigente de instituição financeira, presidente da Associação Comercial, político, escritor, teatrólogo e participante de iniciativas culturais e associativas.

Lino Fernandes morreu em Campina Grande, em 20 de abril de 1962, em decorrência de complicações cardíacas.

Sua passagem pela presidência da ACCG foi breve, restrita a 1932, mas ocorreu justamente em um momento de mudança na história da instituição. Sua trajetória mais ampla, porém, revela um personagem cuja presença não ficou limitada à Associação Comercial: a partir do comércio, Lino Fernandes projetou sua atuação sobre a vida empresarial, política, cultural e associativa de Campina Grande nas primeiras décadas do século XX.

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Lenildo Ferreira com o livro Memorial dos 90 anos da ACCG

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