![]() |
| Rua Marquês do Herval (Rua do Algodão) em 1936, defronte ao escritório de João Leôncio |
Antes de chegar à presidência da Associação Comercial de Campina Grande, João Leôncio de Castro já havia construído uma trajetória ligada ao comércio, inicialmente em Cabaceiras e, posteriormente, no mercado algodoeiro campinense. Comerciante, conselheiro de instituições financeiras e participante da vida política e associativa da cidade, ele comandou a ACCG em 1935, período no qual a entidade intensificou reivindicações relacionadas à infraestrutura, aos impostos e às condições necessárias ao desenvolvimento econômico de Campina Grande.
João Leôncio nasceu em 24 de junho de 1884, em Taquaritinga do Norte, Pernambuco. Era filho de Leôncio Absalão Pereira de Castro e Francisca Lucena de Castro. O Memorial ACCG 90 Anos ressalta a escassez de registros sobre sua vida pessoal, não apresentando, por exemplo, informações sobre esposa e filhos.
Sua trajetória empresarial começou no comércio de secos e molhados em Cabaceiras, na Paraíba. Ainda naquela cidade, exerceu outras atividades: foi suplente de juiz municipal, juiz seccional, advogado e delegado de Polícia. Posteriormente, transferiu-se para Campina Grande, onde encontrou no algodão a principal atividade de sua vida comercial.
Instalou seu escritório na Rua Marquês do Herval, conhecida naquele período como Rua do Algodão. Não era uma localização casual. A via concentrava parte importante das operações relacionadas ao produto que impulsionava a economia campinense nas primeiras décadas do século XX.
O estabelecimento de João Leôncio ficava vizinho ao do exportador João de Souza Vasconcelos, outro nome diretamente ligado à história da Associação Comercial. João Leôncio alcançou grande prestígio como comerciante de algodão em Campina Grande.
Uma fotografia preservada no próprio livro de memórias da ACCG ajuda a dimensionar aquele ambiente. Datada de 1936, a imagem mostra intensa movimentação de trabalhadores e grandes volumes de algodão diante do escritório de João Leôncio, na Rua Marquês do Herval, documentando a inserção de seu negócio no coração da atividade algodoeira campinense.
Sistema financeiro e atuação política
Essa presença no meio empresarial levou João Leôncio também a ocupar funções no sistema financeiro. Foi conselheiro do Banco do Brasil e integrou os conselhos fiscais do Banco de Comércio de Campina Grande e do Banco Auxiliar do Povo.
Sua atuação alcançou ainda a política. Entre 1929 e 1930, foi conselheiro municipal. Naquele período, João Leôncio e Lino Fernandes de Azevedo, ambos comerciantes e integrantes do Partido Democrático, estavam entre os representantes do setor empresarial que passaram a ocupar posições na estrutura política local. Essa presença demonstrava o peso que a Associação Comercial começava a adquirir na vida pública de Campina Grande poucos anos depois de sua criação.
Foi nesse ambiente, reunindo comércio, instituições financeiras e participação pública, que João Leôncio chegou à presidência da ACCG.
![]() |
| João Leôncio: quarto presidente da ACCG |
Presidência da Associação Comercial
No final de 1934, João Rique encerrou seu segundo mandato consecutivo. Realizada nova eleição, João Leôncio de Castro foi escolhido para comandar a Associação Comercial durante todo o ano de 1935. A diretoria tinha ainda o coronel Luiz Juvêncio como vice-presidente; Fernando Lyra, primeiro-secretário; Arnaldo Albuquerque, segundo-secretário; João Araújo, tesoureiro; e Octaviano Bezerra da Cunha, vice-tesoureiro.
Quando assumiu, a ACCG já havia superado os primeiros anos de organização e era uma entidade consolidada. Mantinha contatos com associações comerciais de diferentes regiões do Brasil e ampliava sua capacidade de interlocução com o poder público.
A gestão de João Leôncio foi marcada sobretudo por reivindicações práticas relacionadas ao funcionamento da economia campinense. A ACCG fez sucessivos apelos ao interventor federal Argemiro de Figueiredo em defesa dos comerciantes e cobrou reparos urgentes nas estradas de rodagem, melhorias no abastecimento de água e equiparação dos impostos cobrados em Campina Grande aos praticados na capital.
A entidade também reivindicou o prolongamento do sexto fio telegráfico de Itabaiana até Campina Grande e levou à Great Western uma demanda relacionada ao transporte ferroviário: a reformulação dos horários dos trens, buscando reduzir para 52 minutos o intervalo entre a partida de Itabaiana e a chegada da composição que seguia para Campina, evitando que passageiros fossem obrigados a permanecer por longo período naquela cidade.
Entre essas bandeiras, a questão da água tinha especial importância. O crescimento de Campina Grande havia tornado insuficiente o sistema de abastecimento existente, e a escassez afetava também as atividades comerciais. Durante a presidência de João Leôncio, a Associação Comercial esteve entre as instituições que pressionaram por providências para enfrentar o problema.
A administração de 1935 também promoveu mudanças internas. João Leôncio conduziu uma reforma dos estatutos da ACCG, introduzindo emendas destinadas a dinamizar a instituição. Entre elas estava a proibição da reeleição dos presidentes.
A atuação associativa de João Leôncio não se restringiu à Associação Comercial. Ele também participou da criação do Rotary Club de Campina Grande. O quadro de fundadores do Rotary era formado em grande parte por comerciantes ligados à ACCG, demonstrando como os mesmos empresários participavam de diferentes espaços de organização da sociedade campinense.
Falecimento prematuro
Sua trajetória, entretanto, seria interrompida pouco tempo depois da passagem pela presidência da Associação Comercial. João Leôncio de Castro morreu em Campina Grande em 19 de junho de 1937, poucos dias antes de completar 53 anos.
Os poucos registros preservados permitem identificar um personagem fortemente ligado à economia de seu tempo. João Leôncio começou no comércio de secos e molhados, encontrou no algodão sua principal atividade empresarial em Campina Grande, participou de instituições financeiras, ingressou na vida política e chegou à presidência da Associação Comercial.
À frente da ACCG, levou para a entidade preocupações diretamente relacionadas ao cotidiano dos negócios: estradas, água, ferrovia, telégrafo e tributação. Sua trajetória retrata, assim, uma geração de empresários para a qual a defesa do comércio estava estreitamente ligada à luta pela própria infraestrutura e pelo desenvolvimento de Campina Grande.
---
Lenildo Ferreira

